resenha critica- identidade cultural e funcao social da escola.
RESENHA CRÍTICA
Carolina Amândio Nhamposse[1]
1. REFERÊNCIAS
1.1. BUENO, J.G. Silveira. Função social da escola e organização do trabalho pedagógico. Educar Curitiba, editora da UFPR. 2001.
1.2. HALL, Stuart. A identidade cultural nos pós modernidade. 9ª Edição. Rio de Janeiro, 2004.
1.3. TAIMO, Jamisse. História e política do Ensino superior em Moçambique. Instituto para governação, paz e liderança.Maputo.2019.
2. CREDENCIAIS DO AUTOR
2.1. José Geraldo Silveira Bueno é Professor Titular e Coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Professor do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
2.2. Stuart Hall teórico cultural jamaicano radicado na Inglaterra, faleceu no dia 10 de Fevereiro de 2014. Reconhecido internacionalmente por suas publicações sobre o problema da identidade na dita era pós-moderna e as diásporas culturais. Esta obra evidencia a extrema importância de se estabelecer diálogos multidisciplinares em prol da compreensão profunda do cenário cultural no qual estamos inseridos.
2.3. Jamisse Uilson Taimo é professor Doutor associado reformado. Licenciado em teologia pela faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. Mestrado em Educação: Historia, Politica e sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Presidente do Instituto de Governação, Paz e Liderança.
3. RESUMO
3.1. Bueno convida-nos para uma reflexão sobre a melhoria da escola pública a partir da perspectiva teórica que entende a escola como instituição social ímpar e o professor como principal interlocutor privilegiado no ensino fundamental, gratuito, obrigatório.
Compreendemos que a implementação da política de acesso generalizado, obrigatório, à escola fundamental trouxe aumento de alunos que passaram a frequentar a escola, ampliação do número de turnos diários, ampliação do número de alunos por turma aliado a pressão dos órgãos centrais para a diminuição da reprovação e consequente repetência escolares o que faz com que muitos alunos estejam na escola sem que dela tenha usufruído, que praticamente nada aprendem e aumenta a quantidade de analfabetos funcionais.
Por outro lado, a substituição do ensino seriado por sistema de ciclos tem sido colocado em prática sem que se ofereça mínimas condições às unidades escolares e aos profissionais que ali atuam para que essa “não-repetência” não continue a reproduzir a formação de “pseudo-escolarizados”, que só têm servido para engrossar as estatísticas oficiais de “melhoria da qualidade de ensino”. De igual forma, a deterioração das condições gerais de vida tem trazido consequências graves para a escola afetada pela violência do seu entorno social, pelo tráfico e consumo de drogas e álcool assim como pela elevação dos índices de criminalidade. Mas Bueno sublinha a função da escola, único espaço de convivência das crianças desde os seis anos de idade, de formar novas gerações em termos de acesso a cultura socialmente valorizada, de formação do cidadão e de constituição do sujeito social e sublinha que a escola precisa dentro de condições historicamente determinadas dar conta tanto do acesso à cultura como de se constituir em espaço de convivência social que favoreça e estimule a formação da cidadania. Dado que é na conjugação entre as lutas políticas de largo alcance e a qualificação de cada uma das nossas escolas que estaremos construindo a democratização da escola pública, configurando um projecto pedagógico real que privilegie o cotidiano escolar e que estabeleça metas precisas e gradativas.
3.2. Hall fala das mudanças nos conceitos de identidade, termo muito complexo e pouco compreendido, e do sujeito. Apresenta-nos três conceitos de identidade, como sujeito do iluminismo, sociólogo e pós-moderno. Sublinha que a identidade só se torna questão quando está em crise, provocada pelas mudanças estruturais, dinâmicas, que transformam as sociedades em modernas no que tange a identidade pessoal, género, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade, o que se designa por deslocamento ou descentração/ crise da identidade. Na concepção sociológica, a identidade preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior”, entre o mundo pessoal e o mundo público. Desta feita, o sujeito pós moderno não tem identidade fixa, essencial ou permanente, pois é transformada continuamente em relação as formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. Quanto ao caracter da mudança na modernidade, entendemos que a modernidade não é definida apenas como a experiencia de convivência com mudança rápida, abrangente e contínua, mas é uma forma altamente reflexiva de vida, na qual as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas a luz das informações recebidas sobre aquelas práticas, alterando seu caracter. Quanto ao nascimento e morte do sujeito moderno, Hall centra-se em concepções mutantes do sujeito humano, visto como uma figura discursiva, cuja forma unificada com identidade racional eram pressupostas tanto pelos discursos do pensamento moderno quanto pelos processos que moldaram a modernidade, reconhecendo que o sujeito moderno emergiu num momento particular, seu nascimento, que tem uma história que se segue, que pode mudar a qualquer momento, dependendo das circunstâncias e que podemos contemplar a sua “morte”.
3.3. Taimo, por sua vez nos convida a entendermos a história e política do ensino superior em Moçambique assumindo que a economia mundializada reduz o espaço de manobra dos governos locais pois as decisões são tomadas a escala global, dos ricos, do topo, como Estados Unidos, para os pobres, como Moçambique. Tudo o fazem em nome das liberdades, mas acabamos assistindo subidas galopantes das diferenças sociais provocadas pelo egoísmo num estado dependente do sistema capitalistas, pior que a colonização. Essa dependência externa, capitalismo ampliado, deu lugar a crise do Bem-Estar do Estado. Foi nesta senda que Moçambique assina o primeiro acordo com BM e FMI, pedindo ajuda externa que só criou-lhe endividamento, que tornou-se habitual e escraviza Moçambique, pelo capitalismo.
4. APRECIAÇÃO CRÍTICA DA RESENHISTA
4.1. Nos identificamos, como moçambicanos, com o artigo, apesar do mesmo fazer menção da situação Brasileira, pois à semelhança dos factos descrito e vivenciados, em Moçambique o acesso gratuito ao ensino básico, atualmente estendido até a nona classe, permite que grande parte dos moçambicanos tenham acesso ao educação formal o que a prior é ótimo, mas pela falta de infraestruturas e fundos para contratar mais professores temos turmas superlotadas, redução do tempo de permanência na escola, recorrendo-se aos 2 até 3 turnos diários sem contar com o curso noturno, já com professores e alunos cansados com as actividades diárias o que coloca em causa a qualidade do ensino não obstante a questão percentual, quantidade, em detrimento da qualidade de ensino- nossa triste realidade. Porém assumimos a incredulidade na possibilidade da escola assumir a sua autonomia para resistir às políticas que privilegiam quantidade. Para finalizar, questionamos aos educadores que estejam comprometidos com a elevação da qualidade de ensino: como lecionamos? Que acompanhamento se da ao fracasso escolar de forma individual e coletiva? E que medidas são tomadas aos que se envolvem em agressões, consumo e venda de drogas/ álcool?
4.2. De facto a questão da identidade e sujeito é complexa. Reconhecemos, reais os factos descritos, globais, naturais, que ditam as mudanças em estruturas sociais, paulatinamente, que transformam as nossas sociedades, por vezes, em dosagens diferentes, mas no final todas as sociedades são impactadas culturalmente, socialmente, individualmente, psicologicamente, politicamente, economicamente, dando inicio a uma nova identidade, seu nascimento, que também terá seu fim, a sua morte assim sucessivamente. A questão que não quer calar é se é possível definir o tempo, de vida de uma identidade, sua duração e se os indicadores do fim de uma identidade assim como do surgimento de uma nova identidade são visíveis, percetíveis, Se sim, quais são?
4.3. Percebemos que foi nesta senda que Moçambique assina o primeiro acordo com Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, pedindo ajuda externa que só criou-lhe endividamento, que tornou-se habitual e escraviza Moçambique, pelo capitalismo. Notamos, de igual modo, que houve grandes lacunas na definição de políticas na constituição do ensino superior publico: por não clarificar a relação entre o ensino e pesquisa, não diferenciando as actividades de uma universidade e de outras instituições de ensino Superior e por não especificando a missão de cada tipo. Por outra, o Ministério da Educação devia delinear sanções as instituições de ensino superior em casos de incumprimento, mas a Comissão nacional do Ensino superior é que assim o definiu- devia ser inverso.
[1] Mestranda em administração e Gestão Escolar. Docente na escola Secundária de Tete. Licenciada em Ensino de Língua Portuguesa com habilitações em Ensino de Língua Inglesa. nhamposseamade@gmail.com
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